Os novos populismos filhos do neoliberalismo

Carlos Matos Gomes
3 min readFeb 28

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(Deus me salve dos salvadores, que do inimigo salvo-me eu)

Lendo os jornais “ocidentais” (europeus e americanos), vendo as TV, descobrimos uma intensa agitação social envolvendo na grande maioria dos casos os funcionários da administração pública do Estado, ou prestadores de serviços essenciais, educação, saúde, justiça, burocracia, transportes. O inimigo é o Estado. A causa declarada e explícita é a da luta contra o “aumento do custo de vida” que, curiosamente parece só ter atingido estes grupos, dado os outros não se manifestarem…

Como a ação política não há movimentos espontâneos, ou são extremamente raros, como não há manifestações espontâneas com milhares de pessoas trazidas para um dado ponto sem uma organização, sem patrocinadores e sem um objetivo ideológico, para além das “sempre justas” reivindicações devemos perguntar o está por detrás dos salvadores e dos que saem à rua.

O que está a ocorrer na Europa é semelhante (ou tem a mesma raiz) do que acontece nos EUA, reflete uma moda ideológica: Os novos movimentos populistas ocidentais têm como cimento ideológico a luta pela destruição do Estado e são uma evolução natural do neoliberalismo . Passada a fase do neoliberalismo impor a desestruturação da sociedade, transformando os cidadãos em consumidores, os grupos sociais em indivíduos, os trabalhadores em empresários a título individual, chegou a altura de as oligarquias derrubarem o Estado, enquanto entidade política limitadora dos seus apetites predadores.

O fim do Estado que alguns setores já reivindicam explicitamente derruba as barreiras de proteção social que foram construídas ao longo dos tempos. O “trumpismo” constituiu o primeiro grande afloramento da nova fase do neoliberalismo e do mundo que se está a preparar e onde a guerra na Ucrânia desempenha o papel de ignidor, ou de vulcão em atividade. O trumpismo é uma manifestação de ataque ao Estado fundada na ideologia do neoliberalismo. A luta ideológica contra o Estado inclui o negacionismo, desde a recusa às vacinas à recusa da ciência (até à esfericidade do planeta), a defesa da livre posse de armas (a negação do Estado enquanto garante da defesa da sociedade), a fuga aos impostos (a diminuição dos recursos financeiros do Estado, um ato que Trump tem publicitado), o evangelismo ( a alternativa ideológica com a criação de salvadores) e o novo sindicalismo de oportunidade para desestruturar a organização dos trabalhadores ainda existentes.

Na Europa, a elevação do Estado a inimigo principal é muito claro nas manifestações de setores do funcionalismo público, caso de professores, funcionários da área da saúde, da justiça e de transportes, grupos sociais descendentes do operariado e do campesinato gerados pela ascensão social proporcionada pelo estado de bem-estar, que democratizou e generalizou o ensino. A luta destas novas organizações de que não se conhece nem o passado, nem o presente, nem os padrinhos, mas que gozam de amplo apoio dos meios de comunicação social, é dirigida no essencial contra as organizações com história, apresentando-as como colaboracionistas do “patronato” (uma tática que vem dos grupos maoistas dos anos 60 e 70). A luta do STOP é claramente dirigida contra a FENPROF, obrigando esta estrutura a entrar numa competição de exigências.

A nova fase da implantação do neoliberalismo agrega os renovados movimentos apocalíticos e milenaristas que têm antecedentes na Idade Média, defensores de um caos para dele surgirem os salvadores. Inclui setores aparentemente incompatíveis, mas unidos pelo mesmo objetivo e utilizando os mesmos métodos. Em Portugal são representados politicamente pelo Chega, socialmente pelo recém surgido STOP e religiosamente pelas igrejas evangélicas. São movimentos que a pretexto de naturais aspirações de acesso a bens propõem um suicídio, exigindo que o Estado se sangre e esvaia para os satisfazer, antes deles tomarem as rédeas do poder.

Os demagogos que surgem como profetas têm como missão desenvolver uma política de terra queimada, matar o Estado para que este não intervenha mesmo que de modo pouco eficaz como já o faz na ação dos predadores. Para servirem quem os patrocina dispõem-se a sacrificar os seus seguidores, a arrastar os amorfos e a eliminar os que os desmarcaram.

Eu, que nunca foi um defensor do Estado e tenho a minha liberdade individual como maior valor a manter, devo reconhecer preferi-lo a estes falsos amigos da liberdade, de gente que me oferece uma corda não para eu sair de uma dificuldade, mas para me enforcar.

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Carlos Matos Gomes

Born 1946; retired military, historian