Os debates — saldos e chupa-chupas

Carlos Matos Gomes
3 min readFeb 20, 2024

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Debates na TV: São úteis? São. São acontecimentos que materializam a liberdade de expressão e esclarecem a quem os saiba interpretar os fundamentos em que assenta a liberdade dos cidadãos numa sociedade condicionada pelas armas da comunicação. Esclarecem alguma coisa? Esclarecem a distância entre a prática e a promessa. O tempo da jorna diária e o do sermão da missa. Entre os dias úteis, do senhor, e os domingos, dos sacerdotes.

Os debates, que tenho visto consoante surgem no ecrã nos tempos em que estou diante dele, têm sido muito instrutivos por revelarem o falso e o verdadeiro da prática política e dos seus fundamentos. Em tempos de dia a dia, a política gira à volta de “casos” — de pedradas — o que permite aos demagogos gritar — vergonha! — só neste país !– o ministro para rua, já! — onde está o dinheiro? — vai para a tua terra! — todos farinha do mesmo saco! — limpeza! — é o tempo da barganha, dos lixeiros andarem pela rua a exibir o que encontram nos caixotes do lixo, de sermos convencidos que vivemos num chiqueiro. Há que derrubar quem lá está para salvar a Pátria! A nossa vida depende de saber se o ministro conhecia a que velocidade seguia o carro, se um secretário deu emprego à prima de um colega, se um plano diretor de um rincão desconhecido foi violado — é o tempo das escutas telefónicas, das denúncias de preteridos numa obra contra vencedores, das manifes pelos justos direitos e pela sempre invocada “valorização” das carreiras, das entrevistas de microfone estendido à janela de um automóvel em dia de aumento de combustíveis. Isto não se aguenta! De ida à porta de um centro de saúde. É o tempo do eles é que deviam aqui estar! Venham outros eles!

Chega a época de eleições esses assuntos desaparecem, como por encanto. Onde ouvimos falar do “escandaloso” processo do lítio que levou o Presidente da República a exigir a cabeça do ministro? E o da instalação de uma fábrica chinesa em Sines? E já alguém falou das causas da inflação, das causas dos aumentos do combustível? E das taxas de juro do BCE e do seu impacto na habitação?

Os debates revelam duas estratégias, uma para época de paz política, de guerrilha e desgaste, e outra de guerra eleitoral, de algazarra e ao ataque! Uma para semear e outra para colher. Os debates revelam, a quem seja mais velho e tenha passado pela Guiné, as estratégias de comunicação do general Spínola (agora muito bem apresentada a propósito dos 50 anos do livro «Portugal e o Futuro», do jornalista João Céu e Silva) que emitia uma diretiva para a “época de chuvas” e outra para a “época seca”, uma estratégia que é também utilizada com os cavalos, em que numa época são alimentados com ração seca e noutra com ração “verde”, fresca.

Os debates revelam como os manipuladores de opinião gerem o que devemos ouvir, as canções que os seus cabeças de cartaz nos devem cantar. Os comentários pós-debate são uma afronta aos cidadãos, porque têm por finalidade adormecer o seu sentido crítico e substituí-lo pela mensagem pré-embalada que os tais comentadores têm preparada. Mas parece que geram audiências! Boa parte dos portugueses parece que aceita pensar pela cabeça dos Marques Mendes, Gomes Ferreiras, Ferreiras Leite, Bugalhos, Avillezes, Portas, Ferrões, Lourenços do que pela sua. De chupar os lolly pops que eles lhes oferecem a escolher pela sua cabeça.

A forma como os debates são cozinhados e apreciados dizem mais de nós do que dos candidatos — a quem nada mais resta do que representarem o papel que lhes foi destinado — e dos comentadeiros. Dizem que estamos a comer a palha que nos querem dar. Tentemos escapar.

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