Médio Oriente — Um claro momento de exposição da natureza humana

Carlos Matos Gomes
7 min readOct 9, 2024

O aniversário dos acontecimentos de 7 de Outubro de 2023, um sangrento ataque de guerrilheiros do Hamas a uma povoação do sistema de ocupação do Estado de Israel do território palestiniano serviu, como se esperava, para a montagem de uma gigantesca campanha de apoio à política que desde a sua fundação o Estado de Israel conduz na Palestina .

Para erigir Israel como mártir e vítima valeu tudo: Inventar a História, esquecer o passado, manipular factos do presente. A linha central da mistificação da justificação dos atos assenta na afirmação do direito “à defesa de Israel” e da sua existência. Na realidade o Estado de Israel é uma entidade política criada pelas potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial e por sua conveniência. O direito à defesa de Israel é o mesmo de qualquer guarnição romana nos confins do império. Tem o direito a defender-se correspondente à força de que dispuser ou lhe for proporcionada. Quanto ao direito à existência do Estado de Israel ele resulta do poder de potências exteriores imporem um bastião armado num ponto chave de domínio de um território. Em resumo, o atual Israel corresponde ao Krak des Chevaliers do tempo das cruzadas, uma fortaleza da Ordem dos Hospitalários na Síria e que serviu como centro de administração e base militar, permitindo aos europeus dominar a ampla região do Médio Oriente.

Desde a ocupação do Krak pelos cruzados da ordem dos Hospitalários, 1142, esta fortaleza foi o centro do conflito entre os cruzados e os árabes com vitórias e derrotas. Na primeira metade do século XIII, enquanto outras fortalezas dos cruzados foram ocupadas, o Krak e sua guarnição permaneceram na sua posse até 1271, sendo a única área importante sob seu controlo. A proximidade da fortaleza dos territórios muçulmanos permitiu-lhe assumir um papel ofensivo como uma base a partir da qual áreas vizinhas poderiam ser atacadas. Em 1250 um exército muçulmano devastou o campo ao redor do castelo. Em 1268, o mestre da ordem, Hugo Revel, informou os superiores que a área estava deserta e que a propriedade do Krak no Reino de Jerusalém já valia pouco. O direito do Krak a existir extinguiu-se com a perda de valor para a estratégia do Ocidente, que iria concentrar-se no seu desenvolvimento e na expansão marítima.

O Krak des Chevaliers, como atualmente Israel, são exemplos clássicos de perturbadores estratégicos. Os pregadores da nova história têm inventado um outro, o Irão, agora o responsável pelo genocídio israelita na Palestina e pela invasão do Líbano. O Irão faz parte da história do Médio Oriente desde sempre. Para não ir aos tempos bíblicos, o Médio Oriente e o Norte de África foram dominados por dois grandes impérios, o império persa e o império otomano. Quem não faz parte da história, a não ser como interventor externo, são Israel, o império britânico e o seu herdeiro, os Estados Unidos.

Durante a antiguidade, o império persa englobava os territórios desde a atual Turquia até o Punjab, incluindo o Egito. Do século VII até ao século XI a Pérsia foi anexada pelo império árabe e a partir de então o islamismo passou a ser a religião oficial, mas os iranianos adotaram a versão xiita como forma de reação nacionalista, já que o império árabe seguia a versão sunita. Da mesma forma, a língua persa foi mantida em oposição à língua árabe. Mais tarde a Pérsia vir-se-ia espremida entre os impérios russo na Ásia Central e britânico na Índia. Cada um destes retirou ao Irão territórios que se tornariam Azerbeijão, Quirguistão, Turcomenistão, Tajiquistão, Uzbequistão e partes do Afeganistão.

A Convenção Anglo-Russa de 1907 formalizou as esferas de influência da Rússia e do Reino Unido sobre o norte e o sul do país, respetivamente, onde a potência colonial detinha a decisão final em assuntos económicos. O Xá Cajar concedeu à Anglo-Persian Oil Company autorização para explorar e operar campos de petróleo, que começaram a produzir em 1914. Winston Churchill, que supervisionava a conversão da Marinha Real Britânica para navios de guerra movidos a petróleo, nacionalizou parcialmente a companhia antes do início da Primeira Guerra Mundial.

O atual Irão foi envolvido na Primeira Guerra Mundial devido à sua posição estratégica entre o Afeganistão e os impérios otomano, russo e britânico e ao seu petróleo. Em 1914, o Reino Unido enviou uma força militar à Mesopotâmia para negar aos otomanos o acesso aos campos de petróleo persas. A Alemanha infiltrou agentes na Pérsia para atacar os campos petrolíferos e provocar uma guerra santa contra o governo britânico na Índia. Após a I Grande Guerra o norte do Irão foi ocupado pelo general britânico William Edmund Ironside e o Reino Unido assumiu o controlo dos campos petrolíferos.

Em 1953, após a nacionalização da Anglo-American Oil Company surgiu um conflito entre o xá (pró-americano) e o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh (nacionalista), que levou à deposição e prisão deste num golpe militar realizado com a ajuda dos serviços secretos do Reino Unido e dos Estados Unidos. O xá Reza Pahlevi, que havia fugido do país, retornou e assumiu poderes ditatoriais.

Os laços militares com os Estados Unidos aprofundaram-se em 1971, quando os norte-americanos concederam ao Irão crédito para a compra de armas no valor de um bilião de dólares.

Os Estados Unidos são o herdeiro do império britânico e utilizam Israel como base de ataque na sua estratégia de domínio do Irão. É esta a causa da guerra de Israel contra todos os seus vizinhos e é a recusa em serem submetidos que leva os persas ou iranianos a atacar Israel, que vêm como um factótum americano.

Na década de 80 os interesses no domínio da região do Médio Oriente materializaram-se na guerra Irão-Iraque, oficialmente por razões de definição de fronteiras na região do Shatt al-Arab, onde os rios Tigre e Eufrates se encontram e desaguam no Golfo Pérsico e com um fundo religioso, porquanto o Irão seguia a versão xiita do islamismo, o Iraque era de maioria xiita, mas com um governo sunita e secular. Além disso, o Iraque possuía uma minoria curda que não apoiava o governo iraquiano e, por isso, recebia apoio secreto dos iranianos. Os Estados Unidos apoiaram o Iraque, aliados à Arábia Saudita, dentro da estratégia que está em curso de domínio da versão atual do “Crescente Fértil”, o que inclui os Estados do Golfo, a Arábia Saudita, o Iraque, a Síria, o Líbano e o Egito, tendo como objetivo final o domínio do Irão. Esta estratégia replica a reconstituição do união dos antigos impérios Otomano e do Persa, o domínio do Mediterrâneo Oriental, do Mar Vermelho, do estreito de Ormuz, que permite ameaçar a Rússia e controlar o tráfego marítimo entre o Índico (Índia e China) e o Ocidente através do Canal do Suez. Israel é o pivô desta estratégia e o elemento desestabilizador que a justifica.

O apoio do Irão a vários grupos de resistência na região tem por objetivo opor-se ao domínio dos Estados Unidos que seria a continuação do domínio do império britânico e do regime do Xá Reza Pahlevi.

Durante séculos o desestabilizador da região foi o Império Britânico e desde a revolução industrial e a importância do petróleo, os Estados Unidos e as grandes companhias petrolíferas. O Irão nunca foi um desestabilizador, foi sempre uma entidade sujeita. A justificação de que a Arábia Saudita se aliou aos Estados Unidos por se sentir ameaçada pelo xiismo de Teerão é do domínio da mais despudorada desonestidade. O regime religioso da Arábia Saudita, o wahhabismo sunita, não deve nada em termos de exigência fundamentalista ao xiismo. Grupos terroristas como o Estado Islâmico e a Alqaeda são expressões do radicalismo sunita. O fundamentalismo foi legitimado com a formação da dinastia saudita, no século XVIII, e institucionalizado pelo Reino da Arábia Saudita, formado em 1932, criado pelos ingleses. O fundador da dinastia saudita, Muhammad bin Saud, incorporou na sua política as ideias radicais de Wahhab. Não existe em termos de radicalismo religioso distinção que favoreça o apoio dos Estados Unidos e do Ocidente à Arábia Saudita a não ser a venda de petróleo barato e a compra de material de guerra caro. O resto é hipocrisia e desonestidade intelectual.

Os israelitas são apenas os atuais ocupantes do Krak des Chevaliers que é Israel.

A posição do “resto do mundo” sobre a ação dos Estados Unidos no Médio Oriente reflete o momento de transição das relações de poder que estão em curso. Ao resto do mundo interessa o desgaste que esta guerra provoca nos Estados Unidos, que são quem a paga. À China e à Rússia, em particular, interessa o empenhamento dos EUA nesta região, que limita as possibilidades de intervenção na Ucrânia e em Taiwan. Para os BRICS, esta guerra irá aumentar a já monstruosa dívida pública americana e desvalorizar o dólar, o que é para eles um fator positivo.

A ação de Israel durará até os financiadores americanos entenderem ser lucrativo pagá-la. Uma ação devastadora de Israel sobre o Irão obrigaria os Estados Unidos a empenharem ainda mais meios na região e a aumentar a despesa e é este balanço entre custos e benefícios que os estados maiores financeiros americanos devem estar a fazer relativamente à retaliação de Israel ao Irão. Contas. Contabilidade. Nada mais do que isso. As vidas humanas estão fora da contabilidade. A nossa civilização é um mercado!

Estamos num claro momento de exposição dos valores da nossa civilização e da natureza da humanidade.

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Carlos Matos Gomes
Carlos Matos Gomes

Written by Carlos Matos Gomes

Born 1946; retired military, historian

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