A propósito de manifestações e da vitória de Pirro

Carlos Matos Gomes
6 min readFeb 12

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Porque vamos às manifestações? A pergunta coloca duas questões, uma de ação individual e imediata: pelo sentimento de estarmos a ser mal retribuídos, mal servidos, agredidos e logo exigimos aquilo a que entendemos ter direito! Outra de ordem geral, coletiva, de médio e longo prazo, de reflexão sobre as consequências do tudo e já na nossa sociedade. Em princípio todo o assalariado tem razões para se manifestar, mas os resultados não são idênticos para todos, os elementos que obtêm maior sucesso com as reivindicações são os pertencentes às corporações que prestam serviços de maior relevo social, técnicos de setores críticos. A satisfação destas corporações causa réplicas noutras, criando uma espiral do agravamento das desigualdades e causando a médio e longo prazo o enfraquecimento do Estado, que apesar das suas debilidades perante os poderes fáticos das oligarquias financeiras, ainda é o que resta aos cidadãos como local de expressar a sua vontade.

A manifestação de ontem é um sintoma da crise de um modelo de sociedade de bem-estar. O estado social está a ser sufocado às mãos dos beneficiários do neoliberalismo, para quem os apoios sociais são uma despesa inútil, pois sem a proteção reguladora do Estado é sempre possível encontrar quem venda o seu trabalho por um preço inferior e há sempre alguém disponível para substituir uma peça (um trabalhador) doente (era assim no capitalismo industrial primitivo em Inglaterra, era assim no velho ruralismo português com os trabalhadores à jorna).

Manifestações como a de ontem estão ocorrer um pouco por toda a Europa que voltou a ser ocidental como na guerra fria. É evidente que enquanto existir um mínimo de liberdade e de Estado cada europeu tem direito a reclamar melhores serviços de saúde e os seus trabalhadores melhores remunerações, de gritar não me toquem na reforma, nem na idade dela, como em França, ou de reclamar tempo de serviço, aumentos e carreiras como os professores em Portugal. Mas, se cada um pensa em si e trata de si, resta o problema de todos. Resta o «pequeno» problema de estar a morrer (ou a ser morto) o Estado que confere esses direitos. Não está em morrer (ou em crise, numa expressão mais doce) apenas pelas manifes, mas também por elas, porque aumentam o stress (a tensão) sobre o Estado, promovendo a sua rutura.

De facto as organizações sindicais na Europa continental estão a lutar contra um falso inimigo. Os governos que elas tomam como inimigo estão sob ameaça de um inimigo muito mais poderoso e implacável do que os sindicatos, as oligarquias dominantes a nível planetário. Os governos europeus são hoje instrumentos das oligarquias americanas, sem excepção que se possa apontar. Em Inglaterra, que desde o governo Tatcher é o consulado geral dos EUA na Europa, está deliberadamente instalado o caos antes da imposição (natural) de uma nova ordem para criar uma sociedade que se antevê disfuncional como a dos EUA. Para estes governos as manifes e greves já nada alteram (escorrem na capa da sua indiferença ou desprezo), quem quer saúde ou transporte paga e trata de si, quem quer reforma paga um fundo de pensões, quem quer educação manda os filhos para um colégio privado. O governo de sua majestade já se dispensou dessas preocupações, ignora a contestação, os ministros demitem-se e fazem negócios, organizam parties. A Europa continental vai por esse caminho para o mesmo destino.

A guerra na Ucrânia também serve para derrubar governos europeus com um programa social mínimo e impor governos ultraliberais. Não é possível pagar a guerra na Ucrânia (e a reconstrução do que restar dela) e um estado-providência. Neste quadro, os chefes sindicais, tradicionalmente de esquerda, têm de arrastar os seus seguidores para o confronto com os governos que serão substituídos por outros de direita que erradicarão o estado-social A competição pela adesão de uma clientela educada no egoísmo individual e de casta coloca os dirigentes sindicais no dilema de serem eles a servir a droga que causa prazer momentâneo, mas mata a longo prazo, ou de perderem a clientela para quem se presta a fornecer a droga. No final o resultado é o mesmo. É indiferente morrer às mãos de um bem ou de um mal intencionado!

O jornal El País publica hoje um artigo de opinião que ajuda a entender o que está em jogo: “Estado de bem-estar social: história e crise de uma ideia revolucionária. A ideia de proteger o cidadão do berço ao túmulo está em apuros. Uma das causas é a crise orçamental dos Estados, com um envelhecimento da população sustentado por menos trabalhadores em piores condições Não há elemento mais reconhecido da sociedade de bem-estar social do que o Sistema Nacional de Saúde britânico; Era a joia da coroa e a inveja de todos os países, e hoje está em ruínas. Na França, a luta rua por rua está a ser travada pelo futuro das reformas, com as maiores mobilizações populares em décadas, indiferentes à contabilidade de mercearia: as receitas não chegam para as despesas. Em todos os saíses, discute-se se a educação continua a ser o elevador social que foi construído décadas atrás ou, em vez de promover a igualdade de oportunidades, gera um “monopólio de oportunidades” para os mais ricos. Não há dinheiro para universalizar o atendimento aos mais dependentes. Finalmente, o teletrabalho e outras formas contemporâneas de emprego (uberismo) servem para dessocializar o mercado de trabalho: cada vez mais pessoas ficam fora dos acordos coletivos, e o direito do trabalho duradouro e com direitos é uma miragem. O estado de bem-estar social, a revolução silenciosa que explodiu após a Segunda Guerra Mundial liderada pelo trabalhista Clement Attlee, está em grave crise. Na Espanha, todas os sintomas da doença social e política estão presentes: saúde, pensões, educação pública e universal, assistência e reforma estão no centro da batalha política diária. (Em Portugal sucede exatamente o mesmo) O nosso país (a Espanha, mas também Portugal) queria entrar na Europa, conseguiu-o há quatro décadas, não só em busca das liberdades proibidas no franquismo (salazarismo), mas também para ter o mesmo sistema de proteção social que os países mais avançados da Europa. Hoje em Espanha (e em Portugal) todas as crises dos sistemas dos países europeus estão presentes e no centro da batalha política diária. Em 1991, apenas cinco anos após a entrada da Espanha na União Europeia, o líder de direita José María Aznar escreveu (premonitoriamente): “Somente aqueles que continuam a desejar esse modelo dirigista aspiram a um ressurgimento do estado de bem-estar social. Vale a pena então falar sobre o estado de bem-estar social? É necessário fazê-lo porque há algo inquestionável: o estado de bem-estar social é incompatível com a sociedade de hoje. (Passos Coelho diria o mesmo alguns anos depois) Temos de ser muito claros: o Estado social só entrou em colapso por causa da sua própria inadequação e anacronismo. “(Fim de citação)

Na realidade o estado social está a colapsar porque o neoliberalismo se tornou o pensamento único na Europa, porque os cidadãos em geral, incluindo as corporações (de assalariados, de técnicos qualificados, de profissionais liberais) entraram em competição entre si, lutam entre si para abocanhar a maior parte do conteúdo do baú do orçamento do Estado (uma luta visível nos contratos por ajuste direto de entidades públicas com indivíduos e empresas). A ideologia dominante na sociedade e nas organizações sindicais é a que George Orwell antecipou em Triunfo dos Porcos: todos os trabalhadores são iguais, mas uns são mais iguais que os outros, os mais aptos a demonstrarem a importância do seu trabalho. As manifes servem esse fim: vejam, nós somos capazes de parar o país, logo, paguem-nos mais! Como na selva, sobrevivem os mais competentes a caçar, mesmo à custa de destruírem o equilíbrio na reserva de caça. A manife dos professores é parte desta luta entre grupos e tem a legitimidade do cosi fan tutte, se todas o fazem. Ou a do gang dominante nas mafias de Nova Iorque ou Chicago.

Quanto às vitórias, que os chefes sindicais, e os manifestantes, cada um pelas suas razões, depois dos festejos, não tenham de dizer destas manifes como Pirro a um dos seus apoiantes que celebrava com exuberância a vitória contra os romanos: “uma outra vitória como esta causará a minha completa ruína”, pois havia perdido uma grande parte das suas forças e quase todos os seus amigos.

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